"QUE A ÁGUA SEJA REFRESCANTE. QUE O CAMINHO SEJA SUAVE. QUE A CASA SEJA HOSPITALEIRA. QUE O MENSAGEIRO CONDUZA EM PAZ NOSSA PALAVRA."
Benção Yoruba

sábado, junho 27, 2009

Inno Sorsy conta "The Hunter" , da tradição oral do Benin




Está é uma história sobre um caçador, chama-se a faca do chefe e ela vem do Benin.

Ele era muito quieto, obviamente, afinal, caçadores precisam ser quietos. Ele vivia numa pequena vila, acordava muito cedo todas as manhãs, ia para a floresta, caçava, voltava, salgava a carne, tudo ia bem.
Em uma vila grande vivia o chefe e uma dia ele decidiu dar uma grande festa e convidar todos das vilas circunvizinhas. Então, ele enviou todos os seus mensageiros que diziam:
- O chefe quer que todos sejam convidados para esta festa.Todos sejam bem vindos, todos podem vir.
No dia, todos vieram do Norte, Sul, Leste e Oeste.
O chefe tinha providenciado comida, bebida, música, diversão. Incrível. Fabuloso.
Antes dos convidados chegarem, o chefe colocou sua faca preciosa em um canto do telhado, só para guardá-la, era uma faca precisada, dada de presente a ele por seu tio, feita pelos melhores artesãos de Benin, o cabo era feita de resina, prata e ouro.Era um objeto muito bonito e ele amava esta faca. Ele não queria que nada acontecesse com ela. Por isso a guardou.
A festa estava ótima, todos dançando, todos cantando, todos comendo, todos dançando, todos se divertindo muito.
E quando a festa terminou, o chefe deu ele mesmo um presente para cada convidado. Todos estavam simplesmente delicados, alegres e foram embora cantando agradecimentos ao chefe.
Depois disso, o chefe foi pegar a faca. Mas ela simplesmente não estava lá. Ninguém conseguia encontrá-la. Os servos procuraram por todos os cantos, mas nada.
O chefe disse:
- Meus deus, um de meus convidados roubou minha faca! Minha faca especial. Como pode ser? Que ingrato! - e continou - bem, eu quero que este ladrão seja encontrado e eu o punirei com tortura e morte.
Os mensageiros se espalharam, foram para o Norte, Sul, Leste e Oeste, dizendo:
- Atenção, alguém roubou a faca do chefe. A faca do chefe precisa ser encontrada.
Todas as vilas escutaram isso. Diziam:
- Nossa, isto é terrível.
Os mensageiros foram à vila do caçador. Todos olharam para o caçador e disseram:
- Você, você precisa de facas para o seu trabalho, não precisa?
- Sim, eu tenho facas - o caçador respondeu - eu preciso de facas, teu tenho facas.
- Hum - os moradores diziam entre si - esta não é uma forma muito educada de responder, não é?
Então eles começaram a vigiá-lo. Quando ele saia muito cedo da manhã, eles diziam:
- Está vendo? Ele é culpado. Ele sequer diz "alô" para nós!
Quando ele retornava tarde da noite, voltavam a dizer:
- Está vendo? Ele não fala com ninguém! Ele deve ser o culpado!
E pouco a pouco, eles convenceram a si mesmo que aquele homem era culpado. Tudo que ele dizia ou fazia apontava para sua culpa. Eles se reuniram e começaram a discutir:
- Escutem, nós temos que ir até o chefe e dizer que nosso caçador é o ladrão.
- Não, nós devemos puni-lo nós mesmos - outro disse. Se formos diretamente ao chefe,ele vai pensar que a nossa vila é uma vila de ladrões.Vamos puni-lo nós mesmos!
E então, eles não compraram mais sua carne, ele se tornou cada vez mais pobre. E por conta da atmosfera, ela passava a maior parte de seu tempo na floresta, muito triste e dizia pra si mesmo.
- O que eu vou fazer? Minha vida está terminada.
Na vila, todos comentavam:
- Que desgraça é esse caçador para nossa vila! Como pudemos tê-lo entre nós?
Mas um dia, os mensageiros do rei foram enviados a todos os lugares para avisar:
- A faca do chefe foi encontrada.
Todos ficaram completamente satisfeitos! E quando eles viram o caçador, disseram:
- Veja como ele é? Quieto, não como algumas pessoas que falam o tempo todo. Não. Nosso caçador é um homem respeitável. Ele não fala muito.
Quando ele saía de manhã bem cedo, diziam:
- Veja que trabalhador ele é! Ele não passa seu tempo dormindo com algumas pessoas!
Quando ele voltava tarde da noite, diziam:
- Veja como ele é! Ele não deixa a floresta até que tenha conseguido alguma coisa. Temos muito orgulho dele. Ele é nosso caçador. Ele é um grande homem.
Diz-na na Nigéria que, quando a faca do chefe é roubada, o caçador é um ladrão. Mas quando a faca do chefe é encontrada, o caçador é agraciado.

Tradução de Keu Apoema.
Material recebido pelo wwwrodadehistorias@yahoogrupos.com.br

Fazendo justiça aos artistas:

Gente, ao receber o link do vídeo pelo Youtube, cometi a falta de omitir os devidos créditos ao documentário Histórias, dirigido por Paulo Siqueira, de onde foi retirado este trecho da Inno Sorsy. Este vídeos e outros mais, sobre narrativas e contadores de Histórias, poderão ser encontrados no Youtube, no Canal Cajuínas

Coloco, então, o recado carinhoso que recebi do Paulo, do Canal Cajuínas.

Oi Eliana, meu nome é Paulo Siqueira e sou o diretor do documentário "Histórias", de onde foi retirado esse trecho da Inno Sorsy. Legal que você tenha gostado do trabalho. Nós, eu e a Benita Prieto, estamos tentanto criar um canal de TV pela internet especializado em contadores e para os contadores. Mas nós precisamos da ajuda de todos vocês para que esse canal seja possível e gratuitamente. Portanto, peço que no seu post, que está muito legal, você cite a fonte- o documentário "Histórias", assim como o canal cajuínas no youtube, e se possível, nos ajude a divulgar o canal que nós estamos criando e será lançado no simpósio mundial de contadres de histórias, que ocorrerá no Rio de Janeiro, agora em agosto. Se você quiser acompanhar o canal, no momento pode ser pelo meu blog: cajuinas.blogspot.com. Assim que lançarmos eu avisarei lá e colocaremos os blogs e twitters referentes.Abs e obrigado pela força,Paulo .

Paulo, peço desculpas pela ausência dos créditos e desde já coloco o blog do !Ponto à disposição para divulgação da iniciativa.

Já coloquei um link para o blog na barra lateral.


terça-feira, junho 23, 2009

Viva São João !


São João, Xangô Menino

Composição: Caetano Veloso/Gilberto Gil

Ai, Xangô, Xangô menino
Da fogueira de São João
Quero ser sempre o menino, Xangô
Da fogueira de São João

Céu de estrela sem destino
De beleza sem razão
Tome conta do destino, Xangô
Da beleza e da razão

Viva São João
Viva o milho verde
Viva São João
Viva o brilho verde
Viva São João
Das matas de Oxóssi
Viva São João

Olha pro céu, meu amor
Veja como ele está lindo
Noite tão fria de junho, Xangô
Canto tanto canto lindo

Fogo, fogo de artifício
Quero ser sempre o menino
As estrelas deste mundo, Xangô
Ai, São João, Xangô Menino

Viva São João
Viva Refazenda
Viva São João
Viva Dominguinhos
Viva São João
Viva qualquer coisa
Viva São João
Gal canta Caymmi
Viva São João
Pássaro proibido
Viva São João


São João, um bem comportado santo católico, veio para estas terras a bordo de nau portuguesa . Alimentou-se do milho nascido de Pacha Mama - a Grande Mãe latino-americana. Percebeu, então, que também era o Xangô yorubá, em sua feição de menino.

São João, feliz, convidou a todos para dançar uma quadrilha, dança dos elegantes salões europeus, vestidos de caipiras pira pora. Para iluminar a dança, São João acendeu uma fogueira bem pagã, celebrando a fertilidade da terra e das mulheres (não é por acaso que as noivas da festa de São João casam grávidas). Determinou, então, que a noite de 24 de junho fosse a noite mais longa, para que todos tivessem mais tempo de festejar tanta brasilidade.

Se é verdade não sei... Só sei que foi assim.

sábado, junho 20, 2009

POMAR: Oficina de Contos - PG9



Mais uma turma encerra a Oficina de Contos. Nesta, a PG9, eu e o querido companheiro de trabalho, o professor Lula Costa Lima, docente da disciplina Iniciação Musical, ousamos um trabalho interdisciplinar.

Lula Costa Lima tem pesquisa sobre a relação entre o Sonho e a Música para povo Xavante. Nos propusemos, então, a seguinte troca: em uma dos dias, trabalharíamos, compartilhando uma hora de cada oficina, pesquisando a sonoridade das histórias e os mitologemas dos sonhos.

A tarefa da Oficina de Contos foi propor que um sonho, escolhido por cada pós-graduando, fosse transformado em uma história e, depois, preparado como prepararíamos um conto, pesquisando os mitologemas _ as porções significativas da narrativa _ produzindo imagens e narrando-as. Para o trabalho de encerramento, foi proposto à turma que uma parte apresentasse o que chamamos, na falta de outro nome, de Conto Onírico e outra parte trabalhasse os Contos Maravilhosos. Foi uma experiência interessante, mais um repertório de trabalho para os arteterapeutas.

Faço, então, um desafio ao leitor: dos trabalhos apresentados, apenas três são de contos oníricos, os demais são de Contos Maravilhosos (ou de Fadas). Pelas imagens, quais são os Contos Oníricos?

Agradeço à querida turma PG9 a permissão para compartilhar as imagens.


Com as bençãos de Ossain


Participei de dois dos encontros oferecidos pelo seminário Laços com a Memória, promovido pelo Grupo de Acervo e Memória do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

No encontro do dia 16/06, o cacique Darcy Tupã, da aldeia guarani de Camboinhas - Niterói, tratou dos Laços com o Saber, apresentando a relação Terra - Sagrado - Conhecimento para o povo Guarani. Foi com profunda reverência que ouvi a cosmovisão Guarani e com profunda indignação que ouvi os relatos sobre o incêndio ocorrido na aldeia _ que se encontra em uma área de SAMBAQUI, e, portanto protegida pela lei do Patrimônio Histórico mas, ao mesmo tempo, é uma área de forte especulação imobiliária _ que destruiu objetos de culto ancestrais, cujo valor simbólico é insubstituível. Cabe-nos acompanhar, atentos, os desdobramentos desta questão.

Dia 18/06, foi o momento de Mestre Francisco Gregório apresentar os Laços com as Narrativas. Com seu poder de agregar, Gregório mostrou as Casas de Leitura em Rio Branco - Acre; uniu os laços com palestras anteriores e, generoso como sempre, abriu o espaço narrativo para alguns contadores de histórias presentes . Como em todo espaço em que está o Gregório, logo forma-se uma roda para trocas significativas...

Eu, feliz da vida, contei pela primeira vez um mito de Ossain, o senhor das folhas _afinal, estava no Jardim Botânico! No dia 16, havia chegado muito cedo para o seminário, aproveitei para passear no Jardim e fui parar "por acaso" perto da escultura de Ossanha, que ilustra esta postagem. Diante de tal beleza, só me restava contar um mito deste orixá.

Desejo que o Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico promova mais oportunidades como esta. Aproveito para parabenizar a todos que viabilizaram tão belo Seminário.

Imagem: OSSANHA - Escultura de Tati Moreno; Jardim Botânico, RJ


sexta-feira, junho 12, 2009

Uma volta na espiral


Sou Facilitadora de Biodanza, titulada pela Escola do Rio de Janeiro, filiada á International Biocentric Foundation. Contudo, desde 2004, quando defendi minha monografia de titulação, estou afastada do movimento.

O mês de maio, contudo, trouxe, ao longo de suas Luas, uma série de reencontros. Um deles foi a possibilidade de ministrar a oficina O Caminho do Contador de Histórias para um grupo de faclitadores de Porto Alegre. A iniciativa foi da querida Rute Rodrigues _ Facilitadora de Biodanza, Arteterapeuta e Psicóloga _ que corajosamente teceu este reencontro através da RINACI.

Como a quase totalidade dos eventos de maio, este foi de grande intensidade. Foi voltar às origens, antes mesmo do teatro, da contação de histórias e da Arteterapia.

Foi emocionante voltar à tribo da Biodanza, levando na bagagem a contação de histórias. Foi emocionante e elucidador ver como as linhas de vivência da Biodanza e seus quatro animais arquetípicos dialogam com as narrativas. ..

E que grupo ! Quanta entrega e profundidade !

Como vocês podem notar, não tirei fotos. Simplesmente fiquei tão mergulhada no trabalho que esqueci da máquina fotográfica. Sinceramente, penso que alguns momentos devem ser vividos e depois, narrados; fotografá-los seria aprisionar em imagem algo que é puro movimento, puro instante vivido.

Este curso, com gosto de quero mais, já está no coração e na memória... Já está de cor !

quinta-feira, junho 11, 2009

Criatividade, Arteterapia e Terapias Expressivas em Porto Alegre





Há cinco anos participo dos congressos organizados pela CENTRARTE-RS, sempre no mês de maio. O deste ano (22 e 23 de maio) teve uma forte identidade: arteterapia e trabalho social. Com a presença de representante da CUFA , aresentação de trabalhos de arteterapia com crianças e jovens em situação de risco, com grupos de policiais militares, com idosos, em humanização dos espaços hospitalares, foi um dos melhores Congressos que já participei.

Gislene e Luiz Felipe, dois grandes Guerreiros da Paz, coordenadores do CENTRARTE assumiram uma nova etapa no caminhar da Instituição; eu, que me considero aliada, fico feliz em participar e, no que puder, contribuir para o sucesso desta escolha.

Minha participação consistiu em ministrar, junto com a querida Márcya Vasconcellos, o workshop Eu, Caçador de mim, no qual trabalhamos o mito de Oxóssi caçando o pássaro enviado po Ya Mi Oxorongá; o grande ensinamento é que ele só dispunha de uma flecha; ou tudo, ou nada... Essa é uma das primeiras histórias que contei... Sempre que me sinto no limite, em alguma situação que requer toda a atenção, na qual chances de acertar ou errar são iguais, esta história me ocorre.

Neste dia, senti o mito na pele... Simplesmente fritei o aparelho de CD _ aqui no RJ, as tomadas são em sua maioria 110v, mas em POA, muitas são 220 _ e o workshop estava apoiado na canção Caçador de Mim, do Milton Nascimento. Só tínhamos uma flecha... e acertamos. Solicitamos que os participantes (20) cantassem, e aí aconteceu aquilo que os contadores de história, intuitivamente sabem: nada se compara ao poder da voz, quando profere palavras significativas... Foi emocionante !

Participei, também, com um relato de experiência. apresentei o trabalho que venho realizando na disciplina Arte, Identidade e Cultura nas Sociedades Contemporâneas, no curso de Pós-graduação em Arteterapia da Clínica POMAR. Parti do princípio que a cultura popular encerra um conhecimento, _ expresso em cores, sons, aromas, narrativas_ fundamental para o arteterapeuta.

Como sempre, saio destes encontros nutrida, fortalecida em minhas escolhas, com muitos questionamentos que, com certeza, contribuirão para futuros trabalhos.

É BOM DEMAIS !



Tempo de recolhimento...


Um mês sem escrever... Um mês necessário para, em recolhimento, honrar o fio da minha história. Muitas coisas boas aconteceram nestes 30 dias, a comunicação delas no entanto, necessitou deste tempo, que valeu pelo 'um ano e um dia' dos Contos de Fadas.

O mês de maio trouxe, em suas quatro luas, o reencontro com os primórdios do meu ofício de Contadora de Histórias: o Centro de Teatro do Oprimido e a Biodanza. Cada giro na espiral convidou a um inventário de sonhos e propósitos; a uma avaliação, muitas vezes incômoda, do quanto, ao caminhar, segui minha bússola ou me contentei em seguir mapas já traçados (e graças aos deuses por eles !).

Se não produzi textos _ e até que os fiz, pois participei do Congresso da CENTRARTE em Porto Alegre _ produzi fios com os quais, agora, tecerei as informações das minhas andanças no mês de maio, durante meu tempo de recolhimento.

Paradoxal, não é mesmo? Mas assim é a Vida.