"QUE A ÁGUA SEJA REFRESCANTE. QUE O CAMINHO SEJA SUAVE. QUE A CASA SEJA HOSPITALEIRA. QUE O MENSAGEIRO CONDUZA EM PAZ NOSSA PALAVRA."
Benção Yoruba
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sábado, agosto 01, 2015

Círculos e espirais

Há 11 anos, quando estava iniciando minha caminhada contando histórias sobre a sabedoria e heroísmo dos Orixás, sentia muitas dúvidas...Teria o direito de contá-las? Estaria, inadvertidamente, faltando ao respeito para com a fé de muitos homens e mulheres? Foi quando, em uma loja de produtos naturais, conversando sobre livros com um ambientalista, fui convidada a participar do Seminário Espaço Sagrado.

Minha participação seria contar histórias para sacerdotes e sacerdotisas de tradições cujos rituais são ligados á natureza...Entre estes, sacerdotes e sacerdotisas de Umbanda e Candomblé...Que desafio!!! Ainda lembro da sensação dos intermináveis segundos entre ser anunciada e começar a contar a história. 

Aquela participação, a acolhida daquelas sábias mulheres e sábios homens foi fundamental para que eu tivesse a tranquilidade em seguir com minha paixão pelas histórias da tradição yorubá e lidar com o grande desafio que é a recepção às mesmas... Sempre desejei agradecer ao ambientalista que me convidou; sempre desejei dizer-lhe dos desdobramentos daquela Roda, contar que o trabalho nutrido por aquele Seminário amadureceu, hoje dá frutos e produz sementes.

Ontem, 11 anos depois, em um Ritual da Lua Cheia, o reencontrei. Pude agradecer, de todo coração, o caminhar que foi aberto naquela floresta! Recordamos o Seminário, a sincronicidade do encontro de 11 anos atrás e já estamos traçando parcerias para novas contações. Grata Patricia Oliveira, pelo convite que me permitiu expressar toda a gratidão que sinto; grata Luciana Craveiro Vilanova por estar presente. Grata Marcelo Prazeres, dirigente do Semeadores da Luz e do Brahma Vidya, pois maravilhosos são os Caminhos!


quarta-feira, maio 06, 2015

V Congresso Luso Brasileiro de Arteterapia - RJ



O V Congresso Luso Brasileiro de Arteterapia, cujo tema foi Partilhando Histórias Ancestrais, foi um momento de encontros, aprendizados e inaugurações. Encontros com arteterapeutas de todo Brasil, de Portugal e de Guiné Bissau; um aprendizado sobre nossas diferenças e semelhanças; e inauguração de uma nova maneira de trabalhar com minhas queridas histórias africanas.

Trabalhei intensamente: ministrei um mini curso e uma oficina que avaliei como intensos; apresentei uma performance, cuja construção coletiva (com Adriana Fernandes; Emyly Ferreira; Monique Guimarães; Patrícia Rodrigues e Luciana Craveiro Vilanova) cada dia se mostra mais profunda e eficaz como provocação para o debate; e mediei uma Mesa deliciosa sobre Cultura Popular e Inconsciente Coletivo.

Agradeço à organização, aos colegas e às colegas e, principalmente, agradeço Aquele cuja imagem arquetípica foi o fio condutor de meus trabalhos: LAROYÊ !



André Lobão e o Boi... (Estou no cantinho, dançando)

No mini-curso "Histórias afro-brasileiras e inconsciente cultural na prática arteterapêutica", contando uma das muitas histórias de Exu, o Mensageiro

Arrumação da sala para a oficina: "Onde os Caminhos se cruzam: histórias afro-brasileiras na prática arteterapêutica", onde trabalhamos Exu enquanto Mensageiro do Inconsciente Coletivo (Orun)

Produções da oficina: Onde os Caminhos se cruzam. Uma oficina intensa, com um grupo especialíssimo. Minha gratidão às doces guerreiras, participantes da oficina.

O Boi na Mesa Temática 1 - Inconsciente Coletivo: a grande história ancestral 

sábado, setembro 20, 2014

Notícias



Escrever é trabalho artesanal. Frequentemente ligada ao ato de tecer, a escrita muitas vezes nos obriga a mergulhar no primordial, buscando o barro mítico que se transforma em carne, e a carne em experiência e a experiência em texto. O quanto moldamos a escrita e o quanto esta, apesar de nossa, nos molda...

Qualifiquei no doutorado, com um texto em personalíssima primeira pessoa. A ousadia foi elogiada pela banca;  porém, só eu sei que não saberia escrever de outra forma... Totalmente implicada em meu projeto de pesquisa me senti incapaz do imponente sujeito indeterminado ou do majestoso 'nós'.

Logo depois, fui à Fortaleza apresentar um trabalho. Fui de ônibus _ 48 horas de estrada... Ouvi histórias de vida, vi o verde exuberante da Bahia se tornar o valente verde do semiárido cearense, vi mulheres rendeiras...

Continuo tecendo e moldando... Lidando com fios e modelando o barro primordial.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Do contar ao escrever

Imagem disponível em:
http://rociorodi.blogspot.com.br/2011/05/construtores-de-pontes-os-limiares-de.html

Há muito não faço postagens no blog. Estando às voltas com a escrita, desconectei-me do tempo necessário para escrever. Paradoxo? Com certeza.
Adepta da oralidade e da forma informal de registros, vejo-me às voltas com a expressão em outro modo de escritura _ a acadêmica.
Na próxima semana entregarei o copião do projeto de qualificação para o doutorado e então, depois de muito escrever, quem sabe reencontrarei o tempo interno, necessário, para voltar a escrever...
Paradoxo? Com certeza...

terça-feira, julho 03, 2012

Memória e Identidade de Nova Holanda

 Com muito prazer divulgo este trabalho:

http://www.scribd.com/doc/99016679/Memoria-e-Identidade-de-Nova-Holanda#fullscreen

"O livro conta a história da comunidade Nova Holanda a partir da memória de seus moradores mais antigos (impressões sobre a chegada no local, relações com os vizinhos, participação em associações locais, ligação com a cultura local, estabelecimento dos laços familiares e demais fatores que contribuem para o assentamento de raízes). A publicação chega em boa hora, já que Nova Holanda completa 50 anos em 2012."
Leia a resenha completa aqui: Redes de Desenvolvimento da Maré

segunda-feira, dezembro 05, 2011

De volta à pesquisa



Há muito tempo venho desejando retornar à Academia para um programa de Doutorado. Mas sabem como é... Quatro anos de dedicação intensa... Leitura e mais leituras... Sem contar com a tensão de pesquisar /redigir uma tese + publicações + participações/ apresentações em congressos.
É preciso uma dose de loucura para esta empreitada !
Bem, cá estou eu assumindo minha parcela de loucura: após um processo seletivo que durou 40 dias, fui aprovada no Programa de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Humana, ligado à UNESCO e ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Estou feliz; preparando-me para mais esta possibilidade narrativa.


terça-feira, junho 07, 2011

Coisas que aquecem o coração !

Recebi, pela minha página do Orkut,  esta mensagem de uma pessoa muito querida:

29 mai

Scαrllєt:


Olá minha eterna professora...
tdoo bom?
Não sabe o que acaba de acontecer...Resolvi fazer um programinha as antigas e chamar as meninas que estudaram comigo na Anisio para assistir um filminho aqui em casa e relembrar os velhos tempos...quando acordamos..tomando café da manhã coloquei no canal Brasil por curosidade... e advinha...?
achamos uma antiga Professora muito querida, contando Histórias..como fazia com a gente...
Achamos Incrível... e uma coincidência Perfeita...!!
Como sempre... Está linda...!! Saudades daqueles tempos em que não tinhamos responsabilidades e a alegria de ouvir suas Histórias era enorme...!
Parabéns Professora...Que seus projetos aumentem a cada diaa...!
Estamos aqui Torcendo por vc!
Te Adoroo!!! Bjão


 Coração aquecido, nó na garganta, olhos boiando de saudades e orgulho por fazer parte da história de jovens tão especiais. Obrigada !

domingo, fevereiro 27, 2011

Engravidando a Palavra


Mês de fevereiro, mês de aniversário, mês de me presentear. Claro que optei por fazer parte de duas oficinas de contação de histórias com Mestre Francisco Gregório _ uma no Museu do Folclore e outra na PUC. Como proposta do mestre, a oralitura , ou seja a escritura que leva em conta a oralidade. Esta seria uma cartografia para nosso repertório.
Escolhi, então, do meu baú de memórias, uma oração proferida por minha bisavó Anna e, como um fio que se vai puxando e tecendo, ao mesmo tempo, produzi esse pequeno texto.

"Dentre as explicações para as trovoadas, a mais convincente em minha infância era: "Deus está arrumando a casa e os anjos estão arrastando os móveis."
Trovoadas sempre demandaram ritos protetores: guardar talheres e tesouras, cobrir os espelhos e, principalmente, rezar para Santa Bárbara. Esta parte, particularmente poderosa, ficava a cargo de minha bisavó.
Bisa Anna ia para seu quarto, tirava do bolso o terço _ cujas contas, feitas de sementes, sempre me fascinaram_ e começava a rezar com uma voz plena de musicalidade que, se não acalmava os trovões, com certeza me tranquilizava.
'Santa Bárba bendita (*)
Que no céu estás inscrita
Santa Bárbara se vestiu e se calçou
Suas Santas Mãos lavou
No caminho se postou
Jesus Cristo a encontrou
Jesus Cristo perguntou
_ Bárbara onde vais?
_ Vou ao céu, Senhor, acalmar os trovões.
_ Bárbara vai, vai
Vai lá por estes montes meirinhos
Onde não haja eira nem beira
Nem ramos de figueira
Nem galos a cantar
Nem meninos a chorar.
Um Pai Nosso e uma Ave Maria em louvor à Santa Bárbara

Meio século depois, com as mudanças climáticas e o aumento da incidência de raios, fico aqui, escrevinhando e pensando: "É de bom alvitre mudarmos nossos hábitos para tentar conter as ofensas ao planeta; é mister -outra palavra de minha bisavó _ por via das dúvidas, reaprendermos orações à Santa Bárbara.

(*)Oração da região norte de Portugal, com inúmeras variantes na região entre  Douro e Minho.

No momento em que compartilhei este texto com a turma, me dei conta que esta oração sempre está presente, engravidando minha Palavra , quando conto histórias de Iansã. Bisa Anna era mulher de grande força, como a Senhora dos Raios e Ventos, embora  sua aparência de Velha Sábia lembrasse mais   uma Preta Velha 'portuguesa com certeza',  ou uma Santana .. ou uma Nanã.
Meu repertório afrobrasileiro foi também gestado em Portugal ! Êh Brasil !

sábado, maio 22, 2010

XII Moitará de Histórias



O XII Moitará de Histórias foi, sem dúvida, um marco no ciclo dos Moitarás. Como sempre tem acontecido  _ nas primeiras edições confesso que ficava ansiosa _ o grupo que formou  o Círculo não foi o mesmo grupo que se inscreveu (risos). 

Este encontro foi especialíssimo: para começar, foi um círculo formado por treze mulheres. Poderoso, não é mesmo? Destas, seis já haviam participado de Moitarás anteriores e sete estavam participando pela primeira vez;  a roda de narrativas fluiu como se nos encontrássemos há muitos Moitarás. Contamos histórias de vida, trocamos nossas jornadas e vitórias, saímos nutridas de boas palavras.

Deste Moitará surgiu uam nova proposta de reunião: faremos, de agora em diante,  encontros que chamarei de Moitarás de Repertório, realizados nos moldes atuais; faremos, também, encontros que chamarei de Moitarás de Narrativa, destinados à troca de feedbacks sobre as performances dos contadores de histórias; estes serão mais restritos, com um número menor de participantes. É o !Ponto do Conto concretizando uma de suas propostas.

domingo, março 07, 2010

Eduardo Coutinho e as histórias

Um cineasta é um contador de histórias. Eduardo Coutinho é um contador de causos, que nos convida a tomar assento em um círculo simbólico, ao redor da telona, para ouvir incríveis histórias de vida. Neste trecho de entrevista concedida a Luciana Pessanha, publicada na Revista O Globo, de 7 de março de 2010, o documentarista tece comentários bem interessantes para todos os contadores de histórias:


"Ficou claro para mim que o público sempre foi ver meus documentários porque o ato de narrar das pessoas é mágico. Por que interessa uma narração? Porque conta que matou o pai? Não é só isso. É porque a pessoa conta sua história com uma sintaxe, um vocabulário, uma força expressiva extraordinária. É um elemento ficcional, do imaginário, que é muito mais poderoso que o real. Você conta a sua infância e é uma infância que está na sua memória, feita  metade de esquecimento, metade de verdade. O que é verdade ? Isso passa a ser desimportante."

domingo, maio 03, 2009

Augusto Boal : Coragem de ser feliz !


IMAGEM: CELEBRAÇÃO DA ABERTURA DO RIPPLE EFFECT FESTIVAL, TORONTO, CANADÁ, 1997. FESTIVAL QUE REUNIU PRATICANTES DO TEATRO DO OPRIMIDO DA EUROPA E AMÉRICAS. (ARQUIVO PESSOAL)

Enquanto digito esta postagem, o corpo de Augusto Boal está sendo cremado.
Desde ontem estou imersa na saudade, nas boas lembranças e na gratidão. Do Augusto Boal teatrólogo, todos sabem a importância. Então construirei minha narrativa de um outro ponto de vista:

Era uma vez uma professora, da Ilha do Governador, militante sindical e partidária ,que um dia conheceu um teatrólogo mundialmente famoso. Entrou quase de penetra na peça de um grupo de professoras, suas conhecidas, que encenavam um Teatro Fórum, sob a direção de Augusto Boal. Pouco tempo depois, uma proposta irrecusável: um final de semana inteiro participando de uma oficina das técnicas do TEATRO DO OPRIMIDO, na Aldeia de Arcozelo, RJ...

Durante a oficina, um comunicado: Augusto Boal sairia candidato a Vereador do município do Rio de Janeiro, pelo Partido dos Trabalhadores; trazia a proposta do Teatro como ferramenta para debate e transformação social. Os projetos a serem apresentados pelo vereador sairiam do debatem em cena: era a pesquisa do Teatro Legislativo.

A professora era muito curiosa, e talvez, por hábito da profissão, desejou aprender como se 'fazia aquela coisa'. Topou, fez campanha teatral, representou nas ruas, nos palanques, onde quer que tivesse gente disposta a ouvir...


Na campanha, surgiria o slogan que acompanha a professora, até hoje. Na época, o slogan do Lula era: Sem medo de ser feliz. Boal dizia não bastar não ter medo, para ser feliz era preciso ter coragem... Estava, então, estabelecido o slogan da campanha, do mandato, e da vida da professora: Coragem de ser feliz !

Vereador eleito, e lá foi a professora fazer parte do Gabinete Político-teatral... Trabalhava de domingo a domingo, em comunidades, em manifestações, onde quer que fosse necessário discutir, reivindicar, organizar... Mas aí uma grande paixão se instalou em sua vida: o Teatro, ou melhor dizendo, o processo criativo, altamente transformador que é a teatralidade humana e o fazer teatral. Essa paixão quase custou seu Mestrado! Imaginem escrever uma dissertação com a Vida clamando nas ruas...

Terminado o mandato, o teatro continuou, desta vez com investigações criativas, novas buscas, novos horizontes. Com o Teatro, a professora (de História) foi ao Canadá e pasmem...Egito! Ver ao vivo e a cores o que só via em livros.

Aprendeu que para trabalhar com gente, tem que correr os mesmos riscos.
Aprendeu que todos podem fazer Teatro, até os atores.
Aprendeu que cidadão é quem transforma o mudo em um lugar mais belo e justo.
Aprendeu que para ser feliz é preciso coragem.

Tudo isto com o Centro de Teatro do Oprimido e com Augusto Boal.

O encontro com Augusto Boal transformou minha vida. Deixei de ser espectadora, de ficar só na platéia. Assumi o palco e, principalmente, cultivo a Coragem de ser Feliz !







NA FOTO QUE ABRE ESTA POSTAGEM , AUGUSTO BOAL ESTÁ EM CADA UM DE NÓS...

ONDE ESTARÁ SEMPRE !


OBRIGADA BOAL !

segunda-feira, novembro 24, 2008

VIII Moitará de Histórias - Fotos


Imaginem um Moitará marcado com uma semana de antecedência, em um domingo de "feriadão", com chuva e, para completar, convidando à criação de histórias com base na memória familiar ( às vezes é muito delicado abrir o baú das lembranças ). Tal evento tinha tudo para não acontecer, certo ? Ah! Mas envolvia Contadores e Contadoras de Histórias... E aí não há mau tempo ou feriado prolongado capaz de impedir o encontro.

Um pequeno grupo de valentes se reuniu, neste dia 23, na Clínica POMAR, para mais um Moitará de Histórias do !Ponto do Conto. Confesso que fui para lá achando que ficaria só. Chovia cântaros, como dizia minha bisavó. Na hora marcada, um a um,foram chegando, munidos de guarda-chuva, boas histórias e principalmente, um enorme coração, capaz de
fazer a travessia por lembranças nem sempre agradáveis, e transformá-las em histórias, das mais belas que já ouvi.

Com a permissão dos autores (no caso, autoras), as narrativas estão transcritas no blog Moitará de Histórias. No mesmo endereço, mais fotos e comentários sobre o processo de criar e compartilhar estas histórias de vida.

Nossas histórias são mesmo mais bonitas que a de Robinson Crusoé !



domingo, novembro 16, 2008

VIII Moitará de Histórias do !Ponto do Conto




VIII Moitará de Histórias do !Ponto do Conto



Ancestrais


Este Moitará é um convite para que você transforme uma lembrança familiar em um conto , crônica ou poesia e traga 20 cópias, para trocarmos bem-aventuranças e sabedoria de nossos Ancestrais.



Dia 23 de novembro de 2008.

das 15:00h às 18:00h


Local: Clínica Pomar, Tijuca.


inscrições: mandalaxxi@yahoo.com.br


Foto: meus bisavós Antônio e Anna da Glória, provavelmente na primeira década do século XX
(trabalho em photoshop sobre foto de autoria desconhecida
).


domingo, outubro 12, 2008

Cartola - 11/10/1908




Os primeiros cem anos de Cartola...
Além da música, que dispensa comentários, um pouco do registro de uma história que nos proporciona canções eternas. Neste vídeo, Cartola aparece com seu pai.


terça-feira, maio 20, 2008

Dia Internacional de Histórias de Vida - Fotos





No dia 16 de maio, celebrei o Dia Internacional das Histórias de Vida, com as turmas de sexto ano da Escola Municipal Anísio Teixeira, onde trabalho. Foram realizadas três rodas de histórias, uma com cada turma, no horário correspondente às aulas de História.

Seguimos o ritual de preparar a sala de aula, acender o Fogo no centro da roda, contar as histórias, celebrá-las e, finalmente, tornar a colocar as carteiras nos lugares, para a aula que viria a seguir.

Considero que, com este evento, o conceito de Moitará de Histórias foi aprofundado: um Moitará tanto pode ser uma roda para troca de narrativas que leve em conta Kairos - o tempo 'certo', orgânico, quanto pode dialogar com Cronos - o tempo dos calendários, relógios e campainhas escolares sinalizando o término do tempo de aula.

Ouvimos muitas histórias de travessuras... Ouvimos histórias de saudades...

Em uma das turmas, ouvimos muitas histórias de terror: a lenda urbana da Mulher de Branco, que assombra os banheiros das escolas, foi contada com uma enorme riqueza de variações. Esta turma específica é bastante atingida pela violência que, para nossa vergonha cidadã, assombra algumas comunidades da Cidade do Rio de Janeiro. As histórias de terror substituiram as histórias de vida, estas também, muitas vezes, assustadoras.

Fiquei feliz com a qualidade de ser humano aprendente que o encontro proporcionou e nutriu. Ali estava, na prática, a fala de Mia Couto: "Eu seria uma pessoa pobre se não fosse capaz de produzir histórias, de fazer da minha própria vida uma narrativa que posso emendar, apagar e enfeitar." Ali também estava Walter Benjamin, representado no exercício de trocarmos experiências significativas, no aprendizado de tornarmo-nos narradores.

A todos os estudantes da sexta série, que me proporcionaram esta lição, um grande beijo e meus agradecimentos por este dia de Boas Histórias !


quinta-feira, maio 15, 2008

Dia Internacional de Histórias de Vida - Espaço para postagem de histórias



Espaço para postagem de histórias de vida

Olá !

Vamos combinar o seguinte:

As histórias serão postadas aqui, como comentários. Em seguida as copiarei para a postagem definitiva.

Um grande abraço

Eliana


Anônimo Drika disse...

Fui "intimada" ontem a escrever uma das minhas histórias de vida.Passei as últimas 24 horas pensando qual contar,uma vez que tenho muitas,algumas tristes,outras alegres.Mas,como acho que na vida nada é por acaso,escolhi uma que tem tudo a ver com o 16 de maio para mim.

Vivi 19 anos ao lado do meu pai.Foram poucos anos para o muito que deixei de aprender com ele, porém muitos para a enorme quantidade de brigas que tínhamos.

Filha única,perdi minha mãe aos 8 anos de idade(essa é uma história a parte que outro dia conto),e meu pai passou a ser um pai-mãe,como ele mesmo dizia.Tornou-se um pai super protetor e nossa diferença de idade,47 anos,piorou nosso relacionamento,quando entrei na adolescência.

Nada,praticamente,ele deixava eu fazer.Eu não podia ficar de papo no telefone,como todas adolescentes ficavam,não podia ir ao cinema com amigas.Nas festas,quando ele deixava ir,eu só podia ficar até às 22:00,horário esse também limite para eu ver televisão.Estudar era minha única obrigação,e a mais cobrada por ele,fosse o dia que fosse,sábado,domingo,férias,ele fazia-me estudar.Eu não tinha vida de uma adolescente normal,eu não tinha liberdade,o que deixava-me, a cada dia,mais revoltada em não poder ser como as outras meninas da minha idade eram.

Eu sentia que ele não confiava em mim,quando na verdade,muitos anos depois, descobri que ele não confiava nos outros.

Com minha revolta,passei a "bater de frente" com ele.Quanto mais tempo passava,mais discutíamos,mais brigávamos,mais nos afastávamos.Quanto mais ele proibia algo,mais eu queria fazer aquilo em questão.

Muitas vezes,revoltada e magoada,dizia coisas que eu não deveria dizer,com o intuito de magoá-lo também.E questionava Deus, por ter levado minha mãe e não meu pai.

Tínhamos muitas diferenças de pensamentos e quanto mais eu o contrariava,deixáva-o irritado.As coisas tinham que ser como ele queria.Na verdade,tudo que ele fazia era pensando em meu bem,sem perceber que tais atitudes poderiam ser mais prejudiciais do que ele podia imaginar(um dia crescemos e a vida fora de nossa casa não é a de um conto de fadas).

Apesar de tudo,eu sabia que ele me amava,assim como eu o amava,e nosso erro maior foi nunca dizermos isso um ao outro,de não demonstrarmos nosso afeto.
Ele era "cabeça dura" e eu também,bem filha dele.Lamento ter sido tão imatura e orgulhosa naquela época para não ter relevado nossas brigas.

Exatos 14 anos se passaram de sua partida.O tempo,senhor de todas razões,trouxe-me a maturidade necessária e dissipou o orgulho bobo que eu tinha,não tendo medo hoje de dizer eu te amo a quem eu queira,de demonstrar meus sentimentos,de relevar e perdoar brigas.

Apesar de nossas brigas,meu pai era um homem de caráter,de palavra,de princípios,e foram essas qualidades que ele deixou-me de herança.

Aprendi que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.Poderá ser tarde demais.Diga eu te amo aos seus pais,familiares,amigos,amores...

9:58 PM



Anônimo Elizabeth Almeida disse...

Uma história de vida

Era o meu terceiro ano na escola, sempre como professora de 8ª série.
Logo no primeiro dia de aula, observei um aluno que sentou-se na primeira carteira e parecia hipnotizado por mim, pois seus olhos me acompanhavam atentamente durante todo o tempo em que estive na sala.


Quando bateu o sinal, o último da manhã, encerrando as aulas, a maior parte dos alunos se retirou apressada, mas um pequeno grupo permaneceu, retirando-se junto comigo. Entre eles estava o Daniel*, que timidamente se ofereceu para levar meu material, a caixinha de giz e tudo o mais que pudesse. Cedi ao pedido e acabei distribuindo entre eles tudo o que carregava. Ao chegarmos ao térreo, vencendo a timidez que o sufocava, ele me perguntou se lembrava do Jander, que havia sido meu aluno dois anos antes. Imediatamente disse que sim, que era um ótimo aluno, muito participativo. Um sorriso iluminou o seu rosto e ele me disse: “Então, professora, ele é meu irmão”.


Retribuí o sorriso e mandei-lhe um beijo carinhoso.


O tempo foi passando e o menino continuava ali, sempre na primeira fila, me seguindo e pouco falando, mas participando ativamente de todas as atividades propostas, sempre timidamente.


Descobri que a maior parte dos alunos nunca havia saído da Ilha do Governador e que nenhum aluno da turma tinha ido ao teatro. Aquilo me incomodou tremendamente e passei a tramar uma forma de levá-los a um “descobrimento cultural”. Como não trabalhava às sextas à tarde, propus a eles fazermos passeios culturais, sempre que eles e eu pudéssemos. Seria uma atividade extra-escolar, mas com autorização por escrito dos responsáveis e sairíamos juntos da porta da escola e voltaríamos juntos também, para o local de saída de onde partiriam para suas casas.


Assim fomos ao Museu Nacional de Belas Artes e ao Paço Imperial, locais que nos receberam sem ônus.


Nesta época entrou em cartaz “O auto da compadecida”, de Ariano Suassuna, com um amigo no papel de João Grilo. Conversei com ele e perguntei se não haveria possibilidades de fazer a peça num horário mais cedo e por um preço mínimo para que levasse os alunos. Dias depois meu amigo me avisou que a minha idéia foi a mesma de vários professores e que por conta disso haveria um dia/horário especial por um valor simbólico de R$5,00.


Contei para a turma, que imediatamente se mobilizou e marcamos o teatro para 15 dias à frente.


Na hora de recolher o dinheiro dos ingressos, descobri que o Daniel não fazia parte do grupo. Procurei-o para saber o que estava acontecendo, se o motivo era financeiro, e ele me disse que o pai não havia permitido, pois não gostava que saíssem de casa, a não ser para a escola, por causa da violência na comunidade em que morava. Não me conformei e me ofereci para falar com o pai pelo telefone. Assim foi feito e disse-lhe que o ingresso seria por minha conta, conquistando o consentimento do pai.


Na data marcada fomos para o teatro. Terminada a peça, meu amigo os convidou para conhecer o palco, que os deixasse a vontade e matassem a curiosidade enquanto se trocava.


Os alunos se espalharam curiosos por todos os cantos, quando o Daniel me chamou agitado, suando muito, para me mostrar uma descoberta. “Professora, corre, vem ver o que eu descobri!”, disse ansioso. Seus olhos brilhavam e o peito arfava. Acompanhei-o até um piano que ele abriu, dizendo: “Olha, é um piano”! Alguns colegas começaram a debochar dele, pois era “só um piano, e daí?”.


Ignorando a tudo e a todos ele disse que tocaria uma coisa para mim. Em pé mesmo, comigo ao seu lado, ele começou a tocar a Marcha fúnebre.
Logicamente a turma toda cercou o piano e logo nos primeiros acordes, ao reconhecerem a música, riam dele, zoando muito e dizendo: “Olha só o que o maluco tá tocando pra professora!”.


Talvez influenciada pela zoação dos colegas, um pouco constrangida, mas pedi silêncio e tratei de elogiá-lo, perguntando se estudava piano há muito tempo, pois era uma peça clássica, difícil de tocar. Ele então me contou que nunca estudara piano, apenas ganhara um teclado que o tio consertou. Ele comprou um livrinho no jornaleiro e foi aprendendo, sozinho.


O silêncio estabelecido para acompanhar nosso diálogo se desfez com a presença do meu amigo, logo cercado de abraços e perguntas dos alunos.


No caminho de volta para casa, vim pensando em cada momento vivido na companhia dos meus meninos. Quantas descobertas de todos nós, quantas emoções!...


Para completar, na segunda-feira ele veio me pagar o ingresso, com 5 notas emboladas de R$ 1,00. Tentei recusar, afirmando que foi uma gratuidade concedida pelo meu amigo, mas foi impossível. Aquele menino sempre calado e cabisbaixo me olhava de frente, olho no olho, dizendo orgulhosamente: “Eu faço questão, professora!” Obviamente tive que aceitar.


Na semana seguinte comecei uma busca frenética por alguém que pudesse lhe dar aulas de piano de graça. Só encontrava parceiros fora da Ilha, o que tornava impossível a realização do agora nosso sonho. Comentava sobre minha frustração com uma amiga na saída da escola que estava acompanhada de uma pessoa que realizava um trabalho voluntário de coral na escola que ouviu tudo em silêncio e no final me surpreendeu com a frase: “Mande o menino a minha casa amanhã à tarde, eu darei aula para ele”.


Imediatamente procurei por Daniel e dei-lhe a notícia, o que provocou nova negociação pela autorização paterna, mais uma vez concedida.


Nos dias seguintes pude observar a transformação dele. Aquele menino tímido e quase solitário, pouco a pouco deixava de olhar para o chão e para mim somente. Sorria
com freqüência, conversava alegremente com os colegas, cada vez mais prestativo e participante. Era agora respeitado e solicitado por todos para ajudar em qualquer tarefa.
Durante a realização de um projeto desenvolvido na escola pode mostrar seus dotes artísticos, ajudando na confecção dos cartazes finais com desenhos espetaculares, em preto e branco, transformando em realidade o que os colegas imaginavam.


O ano terminou e Daniel continuou com as aulas particulares impressionando a professora com seu dom e aplicação. Prestou concurso para a Escola Técnica de Música e foi aprovado. Começou a trabalhar no aeroporto e pouco tempo depois foi chamado para trabalhar no jornal O Globo, o que acabou por prejudicar seus estudos de música por conta dos inúmeros cursos que foi obrigado a fazer.


Faz um tempo não tenho notícias do Daniel, mas tenho certeza que se transformou em um grande homem.

8:09 PM



Dia Internacional de Histórias de Vida





É amanhã !
Quando soube do Dia, fiquei um pouco frustrada... Queria organizar uma boa Roda de Histórias, convidar pessoas, organizar todos aqueles pequenos detalhes dos Moitarás, que tanto prazer me proporcionam.
Cronos, o senhor de todos os calendários e horários, foi inflexível. Além das aulas da manhã, existe toda uma pré produção para a ida a Porto Alegre, dia 28, que precisa ser feita...
A Vida é sábia ! Olhei em volta para ver como poderia participar dessa rede mundial e, ao mesmo tempo, dar conta dos compromissos do dia. Creio que achei uma boa solução:


  • Professora da rede municipal e contadora de histórias Eliana Nunes realiza atividades no Rio de Janeiro

A fim de promover, através do intercâmbio de histórias de vida entre estudantes, valores relativos à uma Cultura de Paz, a atividade será realizada com estudantes do 6º. Ano (11 A 15 ANOS) da Escola Municipal Anísio Teixeira (Rio de Janeiro – RJ) . Serão feitos 3 círculos de histórias, cada qual no tempo correspondente à aula de História. Em seguida será realizado o ritual do Círculo: uma arrumação coletiva do espaço no qual as histórias serão narradas; acendimento do fogo no centro do Círculo, narração de histórias de vida e por fim uma celebração, com uma dança Circular. Além disso, com a atividade Histórias no Ponto será disponibilizado o espaço virtual do blog Ponto do Conto (http://pontodoconto.blogspot.com) para a postagem de histórias de vida.

O quê? contação de histórias de vida, circulo de histórias, registro virtual
Quando? 16 de maio 1º. Círculo: 7:30 h ; 2º. Círculo: 9:00 h ; 3º.Círculo: 11:00 h
Onde? Escola Municipal Anísio Teixeira. Rua Serenata 40, Jardim Guanabara, Ilha do Governador, Rio de Janeiro
+info: : mandalaxxi@yahoo.com.br

Notícia publicada em: http://www.ausculti.org/brasil.html

Amanhã será experimentada, então, uma nova forma de Moitará de Histórias.
Lembre-se que haverá um espaço, aqui no blog, para você colocar uma história de vida.


quarta-feira, abril 23, 2008

Salve Jorge !

"Padroeiro do Brasil"

(Ary Monteiro - Irany de Oliveira):

"Em toda casa tem um quadro de São Jorge/ Em toda casa onde o santo é protetor/ Num barracão, num bangalô de gente nobre/ Há sempre um quadro desse santo salvador/ Quem é devoto é só fazer uma oração/ Que o guerreiro sempre atende/ Dando a sua proteção/ Por isso mesmo não devemos esquecer/ A grande data dia 23 de abril/ Vamos cantar com alegria e prazer/ Porque São Jorge é o padroeiro do Brasil!"


Na madrugada de hoje, 23 de abril, enquanto ouvia os fogos saudando o democrático Santo Guerreiro, lembrei-me das festas de Ogum, realizadas no Centro de minha tia-avó Guilhermina, e o quanto assistí-las, em menina, influenciou a mulher que hoje sou.

Já mencionei, em outra postagem, que sou bisneta de uma benzedeira portuguesa, Anna da Glória, cujos filhos seguiram por caminhos religiosos diferentes: minha avó, católica; um tio-avô, pastor evangélico; e uma tia-avó, Guilhermina, mãe-de-santo ( o termo correto é zeladora de Santo). Aprendi desde cedo que a Verdade aparece em múltiplas narrativas. Em minha casa, sempre se reverenciou o Sagrado com muitos nomes e com muitos ritos, todos eles aceitos e respeitados como portadores de uma Verdade.

Por parte da família de minha mãe, havia o tio José cuja profissão o tornava, automaticamente, devoto de São Jorge. Lembro-me da imensa imagem do Santo em sua casa e da enorme corrente de ouro, com a medalha do mesmo que sempre usava.

Aos olhos da criança que fui, os ritos de Umbanda eram imbatíveis em termos de cânticos, danças e indumentárias. Minha tia, quando entrava em transe e vestia a capa vermelha, punha o elmo com penacho rubro e empunhava o sabre tornava-se Ogum... Tocava-se o clarim, soavam os atabaques e Ogum dançava...

Ainda hoje, quanto conto histórias de Ogum, as cenas da festa povoam minha imaginação, engravidam minha Palavra. Ao contar histórias, entre várias emoções, sinto-me travando o Bom Combate; o respeito para com a multiplicidade, que aprendi com minha família, torna-se uma estrela, guiando minha trajetória.

Hoje, de madrugada, ao ouvir os fogos, agradeci à esta poderosa imagem arquetípica do Santo Guerreiro e, embora não siga nenhuma religião, aproveitei o ecletismo familiar e rezei, pedindo proteção e discernimento para o meu ato de contar Histórias.