"QUE A ÁGUA SEJA REFRESCANTE. QUE O CAMINHO SEJA SUAVE. QUE A CASA SEJA HOSPITALEIRA. QUE O MENSAGEIRO CONDUZA EM PAZ NOSSA PALAVRA."
Benção Yoruba
Mostrando postagens com marcador tradição e contemporaneidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tradição e contemporaneidade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

O Caminhante





É com grande prazer que inicio o ciclo de encontros ONDE OS CAMINHOS SE CRUZAM, fruto de meu caminhar pela Arteterapia, pela Psicossociologia de Comunidades, pelas Ciências Sociais, pela História e pela contação de histórias. 

O ciclo tem como objetivo promover o diálogo entre a Arteterapia e os saberes plurais presentes nas diversas matrizes culturais que, alternativos à Ciência moderna ou articulados à ela, formam uma Ecologia de Saberes. Para Arteterapeutas, acrescenta um caminho para o trabalho com suas próprias imagens e para a compreensão dos significados coletivos de símbolos materializados no setting arteterapêutico.
Cada módulo, sempre mediado pelo campo simbólico da mitologia afro-brasileira, abordará um tema caro a nós, arteterapeutas, professores e professoras, contadores e contadoras de histórias comprometid@s com a diversidade humana,
Em O CAMINHANTE teremos encontros teórico-vivenciais em torno do campo simbólico do orixá EXU. Aproximo-me deste campo, com profundo respeito e admiração. Reconheço, neste saber sistematizado através de histórias, cores, sons, sabores e gestos, uma narrativa arquetípica e uma prática ecológica que, como cidadã e arteterapeuta, considero fundamentais para a construção de uma ética planetária.
Ao longo de dois encontros serão trabalhados três eixos temáticos: Exu como possibilidade de um novo paradigma de conhecimento; como expressão nas artes e nas culturas; e como desafio na práticas arteterapêutica e educacional.
Dias 16 e 23 de março
Das 14h às 17h
Local: Ateliê Eliana Ribeiro - Estrada do Galeão - Ilha do Governador - Rio de Janeiro
INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES PELO E-MAIL
lianrib@gmail.com
Inscrições até 12 de março

(VAGAS LIMITADAS)

terça-feira, outubro 25, 2016

XII Congresso Brasileiro de Arteterapia - Salvador 13 a 15 de outubro

Apresentação do tema: Onde os caminhos se cruzam: a construção de uma Ecologia dos Saberes.

Nesta apresentação, tomei como ponto de partida duas citações de Boaventura Souza Santos:

“Toda experiência produz e reproduz conhecimento e, ao fazê-lo, pressupõe uma ou várias epistemologias. Epistemologia é toda a noção ou ideia refletida ou não, sobre as condições do que conta como conhecimento válido. É por via do conhecimento válido que uma dada experiência social se torna intencional e inteligível.” (Santos, 2009)

“...temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.” (Santos, 2003)

A partir dessas  premissas, apresentei as possibilidades e os desafios para o trabalho de narrativas míticas de matriz yorubá em processos arteterapêuticos.




Trabalho em São Luís

Logo após entregar a versão definitiva, encadernada e engalanada da tese, fui convidada por Cláudia Brasil e André Lobão para trabalhar um módulo na primeira turma de Formação de Arteterapeutas de São Luís. Foram quatro dias intensos, em pleno São João, visitando barracões de Bois e terreiros de Encantaria para debater todo este caldeirão de experiências á luz da prática arteterapêutica. À Cláudia e ao André, agradeço o convite e a confiança. Ao grupo delicioso de arteterapeutas em formação de São Luís do Maranhão, grata pela acolhida e entrega às propostas.

GRUPO DE ARTETERAPEUTAS EM FORMAÇÃO DE SÃO LUÍS REUNIDOS NO BARRACÃO DO BOI DE APOLÔNIO

domingo, junho 21, 2015

Os donos da verdade - Luiz Antonio Simas

Esta é uma de minhas histórias preferidas. A epistemologia decolonial, que preconiza a localização do pesquisador, narrada pela tradição iorubá, por este conto/mito de Exu. Laroyê!
Luiz Antonio Simas é um de meus intelectuais favoritos, pois sua narrativa vem da encruzilhada, este lugar epistemológico que ainda precisamos descobrir e assumir.

Luiz Antonio Simas: Os donos da verdade

Em tempos intolerantes, escutem a lição de Exu e ensaiem outras miradas antes de matar ou morrer por crenças

O DIA
Rio - Contam os iorubás que o orixá Exu um dia resolveu desafiar dois sabichões arrogantes na praça do mercado. Eles garantiam, cheios de teorias, conhecer a verdade sobre determinado acontecimento que abalou o povo. Exu afirmou aos doutores que o dono da razão é aquele que consegue dizer qual é a cor do gorro que ele leva na cabeça. Feito isso, Exu colocou os sabichões em lados diferentes da feira e passou pelo meio deles, gingando ao som dos tambores ancestrais. Acontece que a carapuça do orixá era vermelha de um lado e preta do outro. O que olhou Exu pela direita enxergou o filá preto; o que o olhou pela esquerda viu um gorro vermelho.
Um não admitiu que o outro pudesse estar certo e os dois acabaram se matando em nome da verdade absoluta. Exu soltou a gargalhada zombeteira e seguiu seu caminho, em busca de um bode para descarnar, realizando assim uma de suas funções mais sofisticadas: a de gerar a confusão que, no fim das contas, nos redime e ensina.
A polêmica que envolve a verdadeira cor da carapuça de Exu, o andarilho, destrói a pretensão dos sábios em relação ao domínio da verdade. Ela expõe ainda a sofisticada e ancestral visão de Ifá — o corpo literário com os poemas iorubás da criação — sobre versão dos fatos, questionamento da verdade histórica e disputa pela narrativa; temas tão presentes nestes tempos em que todos parecem dispostos a matar e morrer por crenças e certezas.
A respeito desses babados, li boas reflexões de gente citando Nietzsche, Derrida, Foucault etc. Quero, com este texto modesto, contribuir de mansinho, na quebrada dos tempos, citando a minha maior referência no campo da teoria da História. Já que sou adepto da epistemologia da macumba e tenho por hábito olhar o mundo a partir das encruzilhadas, revelo: Elegbara, mais conhecido como Exu, é o meu teórico do conhecimento predileto.
O fato é que o compadre — um craque nas questões que coloca em suas aventuras — já tinha exposto antes dos alemães e dos franceses esse problema da verdade dos fatos com grande competência.
Fica a dica para tempos difíceis e intolerantes: escutem a lição de Exu e ensaiem outras miradas antes de arrotar sentenças, matar ou morrer por causa de alguma verdade indiscutível. E dancemos enquanto os atabaques tocam.







http://odia.ig.com.br/diversao/2015-06-20/luiz-antonio-simas-os-donos-da-verdade.html

XV Moitará de Histórias do !Ponto do Conto - "Historias para Mudar o Mundo"



Neste dia 21, contamos Histórias para Mundar o Mundo, entrando em rede com a Red Internacional de Cuentacuentos.
Mesmo com um tempo instável, 7 pessoas _ como as 7 notas musicais ou as 7 cores do arco-íris _ formaram o círculo para contar histórias. Incrivelmente, as histórias apresentaram símbolos e imagens recorrentes... É a Palavra, com toda sua força, proporcionando momentos inesquecíveis... Minha gratidão à Ana Lucia Pó, Adélia Azevedo, Maria Elaine Altoe, Regina Porto, Valdelice Costa e Daniel, filho da querida Ana Lúcia, que nos brindou com sua primeira participação. 
A tod@s @s corajos@s, que enfrentaram os chuviscos incidentais e o ventinho do inverno, minha gratidão.



quarta-feira, maio 06, 2015

V Congresso Luso Brasileiro de Arteterapia - RJ



O V Congresso Luso Brasileiro de Arteterapia, cujo tema foi Partilhando Histórias Ancestrais, foi um momento de encontros, aprendizados e inaugurações. Encontros com arteterapeutas de todo Brasil, de Portugal e de Guiné Bissau; um aprendizado sobre nossas diferenças e semelhanças; e inauguração de uma nova maneira de trabalhar com minhas queridas histórias africanas.

Trabalhei intensamente: ministrei um mini curso e uma oficina que avaliei como intensos; apresentei uma performance, cuja construção coletiva (com Adriana Fernandes; Emyly Ferreira; Monique Guimarães; Patrícia Rodrigues e Luciana Craveiro Vilanova) cada dia se mostra mais profunda e eficaz como provocação para o debate; e mediei uma Mesa deliciosa sobre Cultura Popular e Inconsciente Coletivo.

Agradeço à organização, aos colegas e às colegas e, principalmente, agradeço Aquele cuja imagem arquetípica foi o fio condutor de meus trabalhos: LAROYÊ !



André Lobão e o Boi... (Estou no cantinho, dançando)

No mini-curso "Histórias afro-brasileiras e inconsciente cultural na prática arteterapêutica", contando uma das muitas histórias de Exu, o Mensageiro

Arrumação da sala para a oficina: "Onde os Caminhos se cruzam: histórias afro-brasileiras na prática arteterapêutica", onde trabalhamos Exu enquanto Mensageiro do Inconsciente Coletivo (Orun)

Produções da oficina: Onde os Caminhos se cruzam. Uma oficina intensa, com um grupo especialíssimo. Minha gratidão às doces guerreiras, participantes da oficina.

O Boi na Mesa Temática 1 - Inconsciente Coletivo: a grande história ancestral 

sábado, março 28, 2015

Quem segura o Estandarte tem Arte, tem Arte! PG19


     Um momento de grande beleza, quando oito meses de trabalho intenso se transformam em um Estandarte. 
     Gratidão mulheres da PG19! Foi lindo! 
     Um abraço carinhoso.



segunda-feira, março 02, 2015

XIV Moitará de Histórias do !Ponto do Conto







Sob a proteção de Ossanha, o Senhor das Folhas que curam e fortalecem o Axé, realizamos o XIV Moitará. As boas histórias circularam com muita alegria e afeto em nossa roda. Minha gratidão a todos os presentes pela construção coletiva deste encontro.

Mais fotos do XIV Moitará de Histórias aqui:

terça-feira, outubro 07, 2014

Caldeirão de Histórias no evento Arteterapia no Parque


Tenho poucas certezas nesta vida... Uma delas é que preciso contar histórias para Viver. Foi lindo o Caldeirão de Histórias organizado por Maria Elaine Altoe para o encontro Arteterapia no Parque. 

A materialidade é poderosa, tod@ arteterapeuta sabe disso. O Caldeirão, que deu nome à Roda de Histórias, literalmente "puxou" uma história que não havia pensado em contar rsrsrsrs...E pimba! Saiu a briga de Obá e Oxum pelos dengos de Xangô, muito bem temperada pela receita de quiabos fornecida pelos integrantes da Roda.

Alguns 'soltam a franga' ao contar histórias... Estava tão saudosa das 'minhas africanas' que acho que soltei a "Galinha d'Angola"... Afinal, foi a coquém que, ciscando a areia do bornal da criação, criou a Terra. Salve Ela !







sábado, novembro 02, 2013

Ciclos




Bendita seja a Vida em todos os seus ciclos !
Minhas homenagens aos que já fizeram sua travessia.



quarta-feira, abril 24, 2013

Manuel Rui: Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto



Foto do filme: O livro de Cabeceira. Peter Greenaway.


Manuel Rui é escritor angolano, da cidade de Huambo, nascido em 1941. Lançou, entre outros, RiosecoUm anel na areia Quem me dera ser onda, sendo esta a sua obra mais conhecida.
Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto
Manuel Rui
Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, Brasil, 23/05/1985.*


Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala mas porque havia árvores, parrelas sobre o crepitar de braços da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.

Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto não na intenção de o liquidar mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal assim identificando-me sempre eu, até posso ajudar-te à busca de uma identidade em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.

Mas para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me. Assim na minha oratura para além das estórias antigas na memória do tempo eu vou passar a incluir-te. Vou inventar novas estórias. Por exemplo o espantalho silencioso que coloco na lavra para os pássaros não me comerem a massambala passa a ser o outro que não fazia parte do texto. Também vou substituir a surucucu cobra maldita. Surucucu passa a ser o outro. E a cobra no meu texto inventado agora passa a ser bela e pacífica se morder o outro com o seu veneno mortal.

E agora o meu texto se ele trouxe a escrita? O meu texto tem que se manter assim oraturizado e oraturizante. Se eu perco a cosmicidade do rito perco a luta. Ah! Não tinha reparado. Afinal isto é uma luta. E eu não posso retirar do meu texto a arma principal . A identidade. Se o fizer deixo de ser eu e fico outro, aliás como o outro quer. Então vou preservar o meu texto, engrossá-lo mais ainda de cantos guerreiros. Mas a escrita? A escrita. Finalmente apodero-me dela. E agora? Vou passar o meu texto oral para a escrita? Não. É que a partir do movimento em que eu o transferir para o espaço da folha branca, ele quase morre. Não tem árvores. Não tem ritual. Não tem as crianças sentadas segundo o quadro comunitário estabelecido. Não tem som. Não tem dança. Não tem braços. Não tem olhos. Não tem bocas. O texto são bocas negras na escrita quase redundam num mutismo sobre a folha branca. O texto oral tem vezes que só pode ser falado por alguns de nós. E há palavras que só alguns de nós podem ouvir. No texto escrito posso liquidar este código aglutinador. Outra arma secreta para combater o outro e impedir que ele me descodifique para depois me destruir.

Como escrever a história, o poema, o provérbio sobre a folha branca? Saltando pura e simplesmente da fala para a escrita e submetendo-me ao rigor do código que a escrita já comporta? Isso não. No texto oral já disse: não toco e não o deixo minar pela escrita, arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto. Interfiro, desescrevo para que conquiste a partir do instrumento de escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma temos de ser nós. ‘Nós mesmos’. Assim reforço a identidade com a literatura.

Só que agora porque o meu espaço e tempo foi agredido, para defender por vezes dessituo do espaço e tempo o tempo mais total. O mundo não sou eu só. O mundo somos nós e os outros. E quando a minha literatura transborda a minha identidade é arma de luta e deve ser ação de interferir no mundo total para que se conquiste então o mundo universal.

Escrever então é viver.

Escrever assim é lutar.

Literatura e identidade. Princípio e fim. Transformador. Dinâmico. Nunca estático para que além da defesa de mim me reconheça sempre que sou eu a partir de nós também para a desalienação do outro até que um dia e virá “os portos do mundo sejam portos de todo o mundo”.

Até lá não se espantem. É quase natural que eu escreva também ódio por amor ao amor.

terça-feira, novembro 27, 2012

Navegar é preciso...


Eis as produções da oficina "Com desejos e bençãos, lá vai meu barquinho".O material disponibilizado foi arrumado seguindo a estética do ebó (oferenda). Lembrei dos ritos de Ano Novo, que aconteciam nas praias, antes de nos tornarmos espectadores de fogos e shows...Lembrei da beleza que era ver cada Terreiro, à meia noite de 31 de dezembro, lançar ao mar um barquinho, iluminado por velas, enfeitado de flores, levando perfumes e espelhos para a Rainha do Mar... Lembrei que os barquinhos seguiam na direção inversa à das caravelas e dos navios negreiros. É o saber fazer popular ensinando a bem aventurança das coisas simples e, por isso mesmo, intensas. Sou grata às maravilhosas mulheres que compartilharam mais esta viagem arteterapêutica.

terça-feira, novembro 20, 2012

Padê de Exu Libertador - poema de Abdias Nascimento

A gameleira branca sagrada de 350 anos da Lagoa dos Negros na Serra da Barriga. De troco impressionantemente oco, diz-se que suas raízes garantem a nascente d'água do lago.
(sítio da imagem)



PADÊ DE EXU LIBERTADOR

Ó Exu
ao bruxoleio das velas
vejo-te comer a própria mãe
vertendo o sangue negro
que a teu sangue branco 
enegrece
ao sangue vermelho
aquece
nas veias humanas
no corrimento menstrual
à encruzilhada dos
teus três sangues
deposito este ebó
preparado para ti

Tu me ofereces?
não recuso provar do teu mel
cheirando meia-noite de 
marafo forte
sangue branco espumante 
das delgadas palmeiras
bebo em teu alguidar de prata
onde ainda frescos bóiam
o sêmen a saliva a seiva
sobre o negro sangue que circula
no âmago do ferro
e explode em ilu azul

Ó Exu-Yangui
príncipe do universo e 
último a nascer
receba estas aves e 
os bichos de patas que
trouxe para satisfazer 
tua voracidade ritual
fume destes charutos
vindos da africana Bahia
esta flauta de Pixinguinha
é para que possas chorar
chorinhos aos nossos ancestrais
espero que estas oferendas 
agradem teu coração e 
alegrem teu paladar
um coração alegre é
um estômago satisfeito e
no contentamento de ambos
está a melhor predisposição 
para o cumprimento das 
leis da retribuição
asseguradoras da
harmonia cósmica

Invocando estas leis 
imploro-te Exu
plantares na minha boca
o teu axé verbal
restituindo-me a língua
que era minha 
e ma roubaram
sopre Exu teu hálito
no fundo da minha garganta
lá onde brota o 
botão da voz para
que o botão desabroche
se abrindo na flor do
meu falar antigo
por tua força devolvido
monta-me no axé das palavras
prenhas do teu fundamento dinâmico
e cavalgarei o infinito
sobrenatural do orum
percorrerei as distâncias
do nosso aiyê feito de
terra incerta e perigosa

Fecha o meu corpo aos perigos
transporta-me nas asas da 
tua mobilidade expansiva
cresça-me à tua linhagem
de ironia preventiva
à minha indomável paixão
amadureça-me à tua 
desabusada linguagem
escandalizemos os puritanos
desmascaremos os hipócritas
filhos da puta
assim à catarse das 
impurezas culturais
exorcizaremos a domesticação
do gesto e outras
impostas a nosso povo negro

Teu punho sou
Exu-Pelintra
quando desdenhando a polícia
defendes os indefesos
vítimas dos crimes do
esquadrão da morte 
punhal traiçoeiro da 
mão branca
somos assassinados
porque nos julgam órfãos
desrespeitam nossa humanidade
ignorando que somos 
os homens negros
as mulheres negras
orgulhosos filhos e filhas do
Senhor do Orum
Olorum
Pai nosso e teu
Exu 
de quem és o fruto alado
da comunicação e da mensagem

Ó Exu
uno e onipresente
em todos nós
na tua carne retalhada
espalhada por este mundo e o outro
faça chegar ao Pai a
notícia da nossa devoção
o retrato de nossas mãos calosas
vazias da justa retribuição
transbordantes de lágrimas
diga ao Pai que nunca
no trabalho descansamos
esse contínuo fazer 
de proibido lazer
encheu o cofre dos exploradores
à mais valia do nosso suor
recebemos nossa
menos valia humana
na sociedade deles
nossos estômagos roncam de
fome e revolta nas cozinhas alheias
nas prisões
nos prostíbulos
exiba ao Pai
nossos corações
feridos de angústia
nossas costas chicoteadas
ontem
no pelourinho da escravidão
hoje 
no pelourinho da discriminação

Exu 
tu que és o senhor dos 
caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam
teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando nossa luta
atual e passada

Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras
neste padê que te consagra
não eu
porém os meus e teus
irmãos e irmãs em
Olorum
nosso Pai
que está 
no Orum


Laroiê!

Búfalo, 2 de fevereiro de 1981


(Clique no título do poema para caminhar em sítio com a obra de Abdias Nascimento)

quinta-feira, novembro 01, 2012

Dia dos Ancestrais

FESTIVAL GELEDÉ - Homenagem às Ancestrais Femininas FONTE: Terra dos Orixás


Eu não ando só... Meus ancestrais caminham atrás de mim, pintados, batendo pé no chão.