"QUE A ÁGUA SEJA REFRESCANTE. QUE O CAMINHO SEJA SUAVE. QUE A CASA SEJA HOSPITALEIRA. QUE O MENSAGEIRO CONDUZA EM PAZ NOSSA PALAVRA."
Benção Yoruba

segunda-feira, outubro 15, 2007

E por falar em histórias


Vamos pensar: o que é uma história brasileira? É só pegar Mestre Câmara Cascudo para ver que o caldeirão chamado Brasil tem muitos falares. Um deles é de matriz africana, com seus vários povos, reinos e impérios.
Os homens e mulheres, sequestrados de suas terras pelo capitalismo que então se iniciava, conservaram heroicamente essas histórias, misturaram-nas com o solo de massapê nas plantações de cana-de-açúcar, assim se formou o que chamamos Brasil. Creio que nós, que escolhemos contar histórias, devemos revolver sempre este solo, para que fique "fofo", para que possa respirar...ser fértil.

Alguns colegas professores sugeriram, certa vez, que eu enviasse aos responsáveis um pedido de autorização para que os filhos ouvissem as histórias afro-brasileiras... E aí eu pergunto: peço autorização para contar os mitos europeus? os mitos indígenas? Por que deveria pedí-la só para os africanos ? Tenho a mais profunda fé no potencial deste caldeirão íbero-americano, mas, para que possamos nos assumir enquanto povo, creios que todas as vozes devem ser ouvidas, não como folclore, mas como visões de mundo.

Creio que o maior ato de amor que um contador de histórias pode oferecer é narrar... Narrar o que é considerado, por muitos, impuro ou coisa do Demo; aí o amor é uma ação política, no sentido de "bem comum". Narrar, mesmo sabendo que não será aceito por todos... A sabedoria veste-se de muitos modos, veste-se com o modo indígena, com o modo europeu, muçulmano, indiano...etc. Cabe-nos a deliciosa tarefa de buscar e oferecer nossa voz para narrativas que são nossas, mas que, por conta de caminhos trilhados pela nossa história enquanto povo, desqualificamos...E aí desqualificamos a nós mesmos.

É preciso olharmo-nos no espelho de Oxum e vermos nossa beleza, dançarmos em uma roda de Toré, em uma ciranda, para vermos que somos comunidade.

4 comentários:

Drika disse...

Oi Eliana,
Na minha opinião,a história brasileira é uma colcha de retalhos da qual fazemos parte,seja num ponto dado ou no retalho para sua confecção.Alguém perguntou aos africanos se queriam participar desta "colcha"?Não.Foram arrancados de suas terras,de seu costumes e culturas e trazidos para cá.Involuntariamente eles passaram a fazer parte da nossa história,contribuiram e muito com nosso país,foram explorados pelos iberico-americanos,mas também trouxeram com eles seus costumes e tradições.
Lembro-me que comecei a estudar história no decoreba,saber as datas dos feitos era o mais importante(eu odiava história nessa época).Depois as datas passaram a ser coajuvanes e a importância dos fatos e o que os levou a acontecer passaram a ser os protagonistas.As ações tinham suas consequências,e tudo ia se intrelaçando(ai passei a gostar da matéria).Mas ainda assim a história era tendenciosa,favorecendo o ponto de vista europeu.Quem sabe não é hora de mudar a forma de contar a história?Toda história tem no mínimo duas versões.Há que contá-las.Acho que valorizar o que somos é importante para mudarmos o futuro do nosso povo.Pedir autorização para contar suas histórias,ao meu ver,seria questionar se eles fizeram parte dela,é negar nossas raízes.
O que seria de nossa cultura,e daí parte de nossa história,se não houvesse a presença africana?Se queremos entender o que se passa ao nosso redor há que se contar os fatos por inteiro e não pela metade.
Será que consegui me expressar?
Beijocas e bom dia do mestre.
Drika.

Débora Kikuti disse...

Minha cara, a sabedoria vestiu-se...de suas palavras escritas.
Ai, que coisa mais bonita...tô contigo; pedir autorização prende a gente, de todo jeito. Engessa a história, bóta a gente em fôrmas...o ato de amor liberta, pra fazermos nossas escolhas...
Acho que o que róla é que os póvos e póvas esquecem que têm que afofar a terra.
Abraço

Quatro ventos e muita sabedoria!!!
Débora Kikuti

Luana disse...

Eliana,
há um tempo venho namorando seu belo trabalho e fiquei tão inspirada com essas suas palavras que desta vez resolvi escrever.
Sou contadora de estórias de São Paulo, comecei com o grupo "As Margaridas" de contadoras, que já traz no nome uma homenagem aos que vieram antes de nós - Margarida era o nome de minha avó pernambucana.
Daí que acho muito valiosa sua consciência da importância da ancestralidade em tudo o que faz.
Amei suas palavras e a sua aproximação do narrar como um ato de amor e também uma ação política visando ao bem comum calaram fundo no coração.
Gracias!
Faço minhas suas sábias palavras e vou sair por aí indicando seu blog.
De verdade, muito inspirador e esperançoso seu trabalho!

Abraço caloroso,
Luana Margarida.

Fátima disse...

Oi, querida

Já falei a respeito desse tema e acho que não vou variar!
Pedir autorização é demais!!!
Desde que as histórias sejam contadas como mitos, não vejo problemas. Não tem cunho religioso! Falei isso uma vez com o Daniel Munduruku: A história de Adão e Eva pode ser absurda para alguns, eu acredito e ponto. Outra coisa é contá-la como um dos mitos de criação para pessoas de cultos diversos. Faz parte da cultura ocidental. Não podemos é dar nossa opinião. Histórias são para ser contadas, não discutidas subjetivamente.
Beijos.