"QUE A ÁGUA SEJA REFRESCANTE. QUE O CAMINHO SEJA SUAVE. QUE A CASA SEJA HOSPITALEIRA. QUE O MENSAGEIRO CONDUZA EM PAZ NOSSA PALAVRA."
Benção Yoruba

sábado, março 28, 2009

Com a Palavra, Augusto Boal

IMAGEM:

FOTO DO ESPETÁCULO A DEUSA DO LAR, TEATRO FÓRUM, REALIZADO PELO CENTRO DE TEATRO DO OPRIMIDO DURANTE O MANDATO DE AUGUSTO BOAL, COMO VERADOR PELO PARTIDO DOS TRABALHADORES. APRESENTAÇÃO REALIZADA NA CINELÂNDIA - RJ, 1993. (*)



Mensagem de Augusto Boal para o Dia Mundial do Teatro, 27 Março de 2009

Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro! Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro. Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana. Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias. Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida". Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida! Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

Augusto Boal


(*) Esta foto faz parte do meu acervo ( a 'loura' sou eu).


segunda-feira, março 09, 2009

IX Moitará de Histórias do !Ponto do Conto - fotos



Ah essa correria cotidiana! Iniciei esta postagem no Verão e a termino hoje, dia 22 de março, no Outono.

Como tenho escrito ao longo dos outros Moitarás, o que caracteriza o encontro é a troca de histórias. Em um Moitará não existe platéia, todos assumem a função de contadores/ouvintes co-criadores das histórias. Tenho refletido sobre o que me levou a estruturar este encontro, desta forma e, como registros iniciais, posso adiantar:

1- O próprio conceito de Moitará para o povo Kamaiurá. Veja neste conto, levado por CARMEM SIMAS, para o III Moitará .

2- A experiência de nove anos participando de trabalhos com o Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro. Augusto Boal em seus livros diz, com muito bom humor , que todos podem fazer teatro...até os atores. Deste modo, todos tornam-se sujeitos de sua própria narrativa, pesquisando e preparando o próprio conto; assumindo a própria voz frente ao grupo.

3- Os escritos de Jean Shinoda Bolen, sobre o poder gerado pelos círculos, em O Milionésimo Círculo, publicação conjunta das editoras Triom & Taygeta.

4- E, é claro, meu texto do coração: O Narrador, de Walter Bejamin.

As notícias do IX Moitará, você encontrará na página do MOITARÁ DE HISTÓRIAS.