Seguimos o ritual de preparar a sala de aula, acender o Fogo no centro da roda, contar as histórias, celebrá-las e, finalmente, tornar a colocar as carteiras nos lugares, para a aula que viria a seguir.
Considero que, com este evento, o conceito de Moitará de Histórias foi aprofundado: um Moitará tanto pode ser uma roda para troca de narrativas que leve em conta Kairos - o tempo 'certo', orgânico, quanto pode dialogar com Cronos - o tempo dos calendários, relógios e campainhas escolares sinalizando o término do tempo de aula.
Ouvimos muitas histórias de travessuras... Ouvimos histórias de saudades...
Em uma das turmas, ouvimos muitas histórias de terror: a lenda urbana da Mulher de Branco, que assombra os banheiros das escolas, foi contada com uma enorme riqueza de variações. Esta turma específica é bastante atingida pela violência que, para nossa vergonha cidadã, assombra algumas comunidades da Cidade do Rio de Janeiro. As histórias de terror substituiram as histórias de vida, estas também, muitas vezes, assustadoras.
Fiquei feliz com a qualidade de ser humano aprendente que o encontro proporcionou e nutriu. Ali estava, na prática, a fala de Mia Couto: "Eu seria uma pessoa pobre se não fosse capaz de produzir histórias, de fazer da minha própria vida uma narrativa que posso emendar, apagar e enfeitar." Ali também estava Walter Benjamin, representado no exercício de trocarmos experiências significativas, no aprendizado de tornarmo-nos narradores.
A todos os estudantes da sexta série, que me proporcionaram esta lição, um grande beijo e meus agradecimentos por este dia de Boas Histórias !




Fui "intimada" ontem a escrever uma das minhas histórias de vida.Passei as últimas 24 horas pensando qual contar,uma vez que tenho muitas,algumas tristes,outras alegres.Mas,como acho que na vida nada é por acaso,escolhi uma que tem tudo a ver com o 16 de maio para mim.
Vivi 19 anos ao lado do meu pai.Foram poucos anos para o muito que deixei de aprender com ele, porém muitos para a enorme quantidade de brigas que tínhamos.
Filha única,perdi minha mãe aos 8 anos de idade(essa é uma história a parte que outro dia conto),e meu pai passou a ser um pai-mãe,como ele mesmo dizia.Tornou-se um pai super protetor e nossa diferença de idade,47 anos,piorou nosso relacionamento,quando entrei na adolescência.
Nada,praticamente,ele deixava eu fazer.Eu não podia ficar de papo no telefone,como todas adolescentes ficavam,não podia ir ao cinema com amigas.Nas festas,quando ele deixava ir,eu só podia ficar até às 22:00,horário esse também limite para eu ver televisão.Estudar era minha única obrigação,e a mais cobrada por ele,fosse o dia que fosse,sábado,domingo,férias,ele fazia-me estudar.Eu não tinha vida de uma adolescente normal,eu não tinha liberdade,o que deixava-me, a cada dia,mais revoltada em não poder ser como as outras meninas da minha idade eram.
Eu sentia que ele não confiava em mim,quando na verdade,muitos anos depois, descobri que ele não confiava nos outros.
Com minha revolta,passei a "bater de frente" com ele.Quanto mais tempo passava,mais discutíamos,mais brigávamos,mais nos afastávamos.Quanto mais ele proibia algo,mais eu queria fazer aquilo em questão.
Muitas vezes,revoltada e magoada,dizia coisas que eu não deveria dizer,com o intuito de magoá-lo também.E questionava Deus, por ter levado minha mãe e não meu pai.
Tínhamos muitas diferenças de pensamentos e quanto mais eu o contrariava,deixáva-o irritado.As coisas tinham que ser como ele queria.Na verdade,tudo que ele fazia era pensando em meu bem,sem perceber que tais atitudes poderiam ser mais prejudiciais do que ele podia imaginar(um dia crescemos e a vida fora de nossa casa não é a de um conto de fadas).
Apesar de tudo,eu sabia que ele me amava,assim como eu o amava,e nosso erro maior foi nunca dizermos isso um ao outro,de não demonstrarmos nosso afeto.
Ele era "cabeça dura" e eu também,bem filha dele.Lamento ter sido tão imatura e orgulhosa naquela época para não ter relevado nossas brigas.
Exatos 14 anos se passaram de sua partida.O tempo,senhor de todas razões,trouxe-me a maturidade necessária e dissipou o orgulho bobo que eu tinha,não tendo medo hoje de dizer eu te amo a quem eu queira,de demonstrar meus sentimentos,de relevar e perdoar brigas.
Apesar de nossas brigas,meu pai era um homem de caráter,de palavra,de princípios,e foram essas qualidades que ele deixou-me de herança.
Aprendi que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.Poderá ser tarde demais.Diga eu te amo aos seus pais,familiares,amigos,amores...
9:58 PM